O sorriso no rosto está lá desde o dia em que a conheci, me
encantei com a simplicidade dos seus pensamentos e de como ela via a bondade
dentro de todo o ser, óbvio que só
fui conhecer esse seu lado anos depois, apesar do sorriso sempre foi muito
briguenta, carrancuda, nunca aceitou um desaforo sem retrucar à altura, se não
usava palavras lançava um olhar tão gélido que restauraria as calotas polares
tão judiadas por esse tal efeito estufa, algo que por sinal ela não entende
muito bem. Somos tão pequenos, como podemos causar tamanha impacto em algo tão
grande? Ela mal sabe que nessa pequenice do seu ser, revirou meu mundo de
cabeça pra baixo.
Estudamos juntos quando éramos mais novos e fomos nos
reencontrar anos depois no mesmo colégio. Não dei muita atenção à ela
inicialmente, ela era muito pequena, não a via direito na multidão… Mas quando
a vi, não consegui esquecê-lá. A aproximação não foi muito fácil, se ela fosse
algum animal seria um daqueles cães pequenos que são absurdamente fofos e
absurdamente chatos ao mesmo tempo, seu jeitinho irritado não facilitava a
aproximação, mal começamos a conversar e já estávamos brigando, não sei bem o
porquê e de coração não quero saber. Até porque nunca irei entendê-lá direito.
E é isso que me atrai tanto nela, ela é um eterno mistério, nunca sei bem o que
se passam por trás daquele par de olhos castanhos, vira e mexe ela está lá
parada encarando a parede, o sorriso está por aqui, mas o pensamento vai longe.
Na escola ela era falante, vivia tomando bronca dos professores,
parte por minha causa, um passatempo era encher o seu saco durante as aulas de
geografia, eu tinha facilidade, ela nem tanta. Às vezes saía um pouco do papel
de amigo e virava professor, sentava com ela para tentar ajudá-la nas matérias,
mas a missão não era fácil, velocidade nunca foi seu forte, seja física ou
mental, demorava para entender os problemas lógicos de matemática e para
desviar das bolas na Educação Física. Velocidade também nunca foi seu forte no
campo amoroso, demoramos até engatarmos, confesso que parte por minha culpa,
nunca fui muito bom nessa coisa de demonstrar sentimento e outra parte por
culpa dela, ela é lenta. Já disse.
Nunca vou esquecer da noite em que eu e ela viramos nós, estava em casa sem
fazer nada quando meu celular começa a vibrar incessantemente. Era um amigo
contando que ela estava em uma festa com ele e queria conversar comigo, hesitei
em ir, estava de molho, com o pé quebrado, mas juntei forças junto à uma dose
reforçada de analgésico e fui. Conversamos muito, pedi desculpa sem nem saber
pelo que – isso se repetiu diversas outras vezes – quando finalmente a beijei.
Gostei tanto que não consegui mais parar de beija-lá.
Maíra vem do tupi, quer dizer heroína mítica. Não achei
definição melhor, ela é uma heroína, talvez por me aguentar tanto tempo, talvez
por se desdobrar em mil e mesmo assim conseguir fazer tudo de forma impecável.
Ela já se meteu a escritora, já foi dona de casa, já virou babá e sempre foi
linda. Heroína porque aguenta qualquer parada, talvez chore, talvez fique
triste e provavelmente precisará de ajuda, mas eu sei que ela alguma hora vai
superar. É uma heroína em todos os significados da palavra, ela é uma droga e
pode – e vai – causar dependência. Vicia, vêm em pequenas doses e acha seu
cantinho no coração alheio, sempre foi assim, sempre falante, sempre
encantadora, sempre explosiva. Ela é ciumenta, um pouco brava, chora fácil, uma
em um bilhão. Peça rara com um valor inestimável. Não há outra igual ela, o
mundo não suportaria. Seu nome é Maíra.
extraido do site ela e...