BRIANA
Seu nome era
Briana.
Tinha longos
cabelos avermelhados e brilhantes, olhos de uma profundidade invejável e de um
azul da cor do céu. Naquela pequena aldeia, lá estava escondida, dentro da mata
fechada para a própria proteção delas, afinal, de uns anos para cá, estavam
sendo caçados como bichos; a inquisição tinha tomado conta de toda a Europa e
as mulheres celtas eram vistas como bruxas. Logo, todo cuidado era pouco.
Enquanto
tomava seu hidromel e olhava a brisa bater nas árvores e balançar os galhos
fazendo um barulho que para ela era a natureza lhe dando “boa tarde”,
aproximou-se um homem jovem muito bonito, de uma altives louvável, porém
inimigo.
Ele era
filho do Rei e estava ali à procura da jovem Briana, que era conhecida por
fazer previsões, chás, que curavam doenças e poções de amor que eram capazes de
fazer mulheres estéreis engravidar, ou trazer o homem amado de volta. Era
chamada de bruxa, por toda a região da Europa, principalmente por que dizia ser
capaz de conversar com a natureza, tais como: as árvores, os lagos e os seres elementais
de todo o tipo; imagine só o perigo que ela representava para uma sociedade
católica e totalmente contra à qualquer tipo de independência feminina.
De repente
Briana, mesmo sem olhar para trás, viu o homem e disse a ele:
-Prazer em
conhecê-lo meu nome é Briana! É a mim que você procura há tanto tempo. Estou
aqui! Não quero que assuste ou maltrate as pessoas do meu povoado se é a mim
que quer estou a sua disposição, só que tenho um recado do seu cavalo meu nobre
senhor... Ele diz que está muito doente e que vai morrer ainda hoje, ele
gostaria que antes disso você fosse se despedir dele.
O homem
ficou paralisado olhando para ela, “Como ela sabia disso?”. De fato, aquele cavalo
que ele estava montado não era o dele, o seu cavalo de repente ficou doente e
nem sequer conseguia parar em pé, então como tinha a missão de encontrar e
prender a bruxa Briana, a pedido do seu pai para assim conseguir o trono do Rei,
afinal seu pai já estava com uma idade muito avançada e com a saúde muito
debilitada. Ele obedeceu ao desejo do pai e foi mata adentro, por dias e dias,
ao encontro de sua bruxa Briana.
Decerto, estava
muito triste. Ele havia ganhado o cavalo do pai quando ainda era pequeno, foi
seu primeiro cavalo, lembrou-se da emoção que sentiu quando recebeu o cavalo no
dia do seu aniversário, e sem perceber, uma lágrima escorreu dos seus olhos. Heimdall era o seu melhor amigo, o acompanhou por várias viagens e
salvou a sua vida inúmeras vezes, durante todos os anos que viveram
praticamente sozinhos por aquelas matas. Mas como aquela mulher podia saber
disso? E se bruxas eram feiticeiras más e cruéis, porque ela haveria de lhe dar
um recado assim, ajudar o seu caçador não era o ato de uma bruxa.
Resolveu
então num impulso levá-la com ele e sair dali o mais rápido possível, não ia
acabar com a sua aldeia, não porque ela pediu, e sim porque ele não tinha tempo
a perder, tinha que voltar e despedir-se do seu Heimdall. Pegou-a
apressadamente e a colocou na garupa do seu cavalo e saíram correndo por dentro
daquela floresta que ela conhecia tão bem, seus cabelos vermelhos voavam como
brasa de fogo envolvendo os galhos das árvores.
Ela com medo
do que o futuro a reservava, naquela nova fase da sua vida, agarrou na cintura
do seu caçador e sentiu um tremor por todo o seu corpo como jamais havia
sentido, sabia que ele não era seu caçador e sim seu verdadeiro amor, mas e
agora?
Passaram horas e horas cavalgando sem trocar
nenhuma palavra, apenas sentindo seus corpos enroscados um ao outro e a magia
que envolvia aquele momento tão intenso, tão denso, tão profundo e tão e assustador,
afinal, por mais que ele não demonstrasse, ele tinha medo das bruxas, essas que
eram, segundo ele, extremamente perigosas e ardilosas. Sabia que usavam de sua
beleza para enfeitiçar os homens e torna-los submissos a elas. Imagine só se um
nobre se tornaria submisso a uma bruxa... “Nunca!” Pensava ele.
Ao anoitecer,
a fome e a sede inevitavelmente apertaram, e ela resolveu quebrar aquele silêncio.
Disse em um momento de extremo desespero:
- Estou com
fome e com muita sede! Vamos parar um pouco para nos alimentarmos? Aqui do lado
tem uma cachoeira e arvores frutíferas.
Ele apenas
balançou a cabeça, não queria admitir, mas também sofria do mesmo mal que
Briana; a sede era tanta que já estava perdendo a lucidez.
Quando ambos
viram o lago ela colocou a mão para pegar água e bebê-la. De repente quando os
seus dedos penetraram naquele lago límpido e de um azul da cor de seus olhos,
toda a água se iluminou ficando com uma cor de um prateado brilhante, semelhante
a cor da lua, mesmo assim ela, como se
já fosse acostumada a isso, continuou o que fazia sem se assustar e bebeu
aquela agua fluidificada.
Ele não
acreditava no que estava vendo, pensou que era a fome ou sede que sentia, ele
dizia em sussurros “Devo estar delirando!”. Mas ao contrário do que ele
imaginava, quando se aproximou do lago e colocou sua mão dentro daquela água de
repente a agua se abriu e de dentro dela surgiu uma mulher linda, uma
verdadeira divindade com um longo vestido vermelho, rosto alvo rosado, longos
cabelos da cor do sol, notou que ela era meio transparente, não era de carne e
osso, ele olhou dentro de seus olhos e ela disse:
-
Sou Épona e vim te dar um recado do seu Heimdall. Ele acabou de partir e quer
te agradecer por toda a dedicação e amor que você deu a ele. “Pode vir Heimdall!”
disse ela, e da mesma forma que ela, Heimdall saiu de dentro da água relinchou
para ele, fez sinal de reverência como era de costume dos dois, abaixou-se para
Épona e ela montou-se em Heimdall. Ambos subiram em direção ao céu, até desaparecerem
por dentre as nuvens alvas como a pele de Épona.
O cavalheiro
ficou algum tempo mudo, sem saber o que pensar e o que dizer, começou a chorar
e a soluçar lágrimas que nunca havia ousado a derramar, colocou todas as
emoções que ao longo de todos aqueles anos nunca pode demonstrar, afinal, um
guerreiro não podia chorar nem ceder.
Chorou por
horas, ajoelhado ao lado daquele lago olhando para o céu, buscando a resposta
para todas as suas dúvidas. Perguntava-se se todas as bruxas, que havia matado,
eram de fatos bruxas ou simplesmente mulheres especiais como aquela, que
acabara de conhecer e que estava levando mais uma vez para o sacrifício; sacrifício
afinal a troco do que? Para que? Por quê? Perguntava-se e não encontrava
resposta.
Sem dúvida,
as mulheres Celtas eram seres iluminados e especiais, caso contrário jamais
teriam a decência de deixá-lo se despedir do seu fiel escudeiro. Como estava
arrependido...Como poderia se redimir de todos os seus erros do passado, de
todas as injustiças que havia cometido em nome de uma fé que no fundo ele não
sentia.
Sem dizer
nenhuma palavra Briana entrelaçou-se em seus braços e o apertou contra seu
peito bem forte como se com um simples abraço fosse capaz de tirar todo o
sentimento de culpa que ele carregava naquele peito.
Esse abraço
durou apenas alguns minutos, mas foi capaz de tirar todos os anos de erros que
ele havia cometido. Sentia-se enfim, um novo homem. E queria recomeçar, a fazer
de fato a “justiça” que ele nunca fez.
Sem perceberem
seus lábios se encontraram com tanta intensidade dentro daquele abraço que mal
podiam se conter, e assim ficaram e se amaram intensamente naquela linda
cachoeira em contato com toda a natureza que ela tanto amava. Passaram desta
forma, o fim de seus intensos dias rodeados pela natureza e pelo povo que ela
tanto amava, e que ele aprendeu a amar e a respeitar: O povo celta.
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